sexta-feira, 29 de março de 2013

O MASCARENHAS DE MORAES E O FIM DA FAVELA DA VERGUEIRO

POR MOISÉS BASÍLIO LEAL

Tenho publicado nesse espaços textos que falam diretamente sobre o bairro do Mascarenhas de Moraes ou que de forma indireta tenha conexões com a história do bairro e da Zona Leste da cidade de S. Paulo.

O artigo acadêmico do geógrafo Lara sobre a Favela da Vergueiro é um daqueles textos que embora não falando diretamente sobre o Mascarenhas, tem profundas conexões com as situações que marcam a origem do nosso bairro, pois algumas das famílias que conseguiram suas casas no conjunto vieram para cá por conta do fim daquela favela.

Seria interessante se conseguisse relatos desse moradores sobre como foi esse processo de deslocamento e quais implicações que ele trouxe para suas vidas. 
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Fonte: Sítio da Revista Geográfica de América Central - http://www.revistas.una.ac.cr/index.php/geografica/article/view/2281

FAVELA DA VERGUEIRO E MODERNIZAÇÃO À BRASILEIRA: APONTAMENTOS SOBRE INDUSTRIALIZAÇÃO E TRABALHO NA FORMAÇÃO DO CAPITALISMO NO BRASIL

Fernão Lopes Ginez de Lara

Resumen


A presente pesquisa trata da favela da Vergueiro, em São Paulo. Surgida nos anos 1950, foidespejada na década de 1970, representando um momento em que o fenômeno das favelas ainda não assumira grandes proporções na cidade. Sua análise se integra num estudo mais amplo sobre a modernização brasileira. Retomam-se debates sobre a indústrialização e o desenvolvimento do capitalismo brasileiro, que frequentemente situaram as favelas enquanto marginalidade ou atraso; inversamente, pressupõe-se que o desenvolvimento do capital amplia tais fenômenos. Recoloca-se a noção centro-periferia enquanto oposição necessária. Faz-se leituras de "O Capital" de Marx considerando a determinação da socialização mediada por abstrações, assumindo potencia explicativa a teoria do valor, o fetiche e a crise enquanto imanência do processo reprodutivo do capital. Coloca-se a discussão sobre o trabalho produtivo x improdutivo e a autonomização da reprodução do capital e capital fictício, verificando a importância das condições de trabalho para o surgimento e formação de favelas. Até o momento, verificou-se que a população daquela favela empregava-se na construção civil e serviços domésticos, tendo sido posteriormente deslocada para os extremos da metrópole (para outras favelas e loteamentos periféricos). Este trabalho é um mestrado em andamento.

Palabras clave


modernização, favelas, trabalho, São Paulo, Brasil.
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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

MAPA DO CONJUNTO HABITACIONAL MASCARENHAS DE MORAES



CONJUNTO MARECHAL MASCARENHAS DE MORAES: UM BREVE RELATO HISTÓRICO

 Por Professor Moisés Basílio Leal

            O Conjunto Habitacional Marechal Mascarenhas de Moraes é o nome oficial do bairro que foi inaugurado no dia 06 outubro de 1968, pelo prefeito Faria Lima, pelo então presidente da COHAB/SP, o empresário Mario Amato e demais autoridades civis e militares na cerimônia ocorrida na praça principal do  bairro. No mesmo ano também foi inaugurada a Escola Municipal de Ensino Fundamental Rodrigues de Carvalho. 

             O bairro está  localizado na altura do número 12.404 da Avenida Sapopemba, distrito do Sapopemba, Subprefeitura da Vila Prudente e Sapopemba, cidade de São Paulo, estado de São Paulo, Brasil.

            Ao norte do Conjunto Mal. Mascarenhas de Moraes passa a avenida Sapopemba e situa a divisa com o Jardim Sapopemba, bairro mais antigo. Ao leste e ao sul o bairro faz divisa com a Fazenda da Juta. E a oeste o bairro faz divisa com o Jardim Adutora e o Jardim São Roberto.

            O Conjunto Mal. Mascarenhas de Moraes foi um bairro planejado e construído pela COHAB/SP - Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo -   uma empresa da Prefeitura de São Paulo, fundada em 1965. Primeiro a COHAB construiu 1.117 casas/embriões, que depois gradualmente foram ampliadas pelos moradores, e depois, na década de 70 do século XX, fazendo frente à Avenida Sapopemba, a empresa construiu mais 176 apartamentos. Em 2005, a COHAB contabilizava que no conjunto moravam 6.465 habitantes.

            A esse número de moradores do conjunto, soma-se mais uma quantidade enorme de pessoas que a partir dos anos 80 iniciaram um movimento de ocupação dos terrenos públicos e do espólio do industrial Humberto Reis Costa no entorno do Conjunto Mascarenhas de Moraes em direção às regiões da Fazenda da Juta e Jardim São Roberto. Ao sul do bairro, essa ocupação se seguiu até ao córrego Oratório, marco da divisão da Capital com a cidade de Santo André. A oeste, o terreno público destinado pela COHAB/SP para construção de equipamento público municipal, parte foi cedido para a Igreja Católica que construiu a Igreja São Sebastião e a outra parte foi ocupada por populares. Mais acima, também a oeste, num terreno particular, que hoje está sendo loteado, está o campo de futebol do Garoa, que utiliza o espaço de comum acordo com os proprietários. O Garoa reivindica construção de um CDM nesse local.

            O nome do bairro, que foi construído e inaugurado durante o período do regime da ditadura militar, é uma homenagem ao comandante da FEB (Força Expedicionária Brasileira), Marechal Mascarenhas de Moraes, que lutou na Segunda Guerra Mundial, nos anos de 1944 e 1945, na Europa. Os nomes das ruas também são uma homenagem aos soldados brasileiros que morreram durante a guerra.

            A construção do Conjunto Mal. Mascarenhas de Moraes e a progressiva implantação de infra-estrutura urbana local induziram ao aparecimento de bairros vizinhos. Entre eles podemos destacar os bairros que surgiram de loteamentos populares como Jardim São Roberto e o Jardim Adutora. Já o bairro da Fazenda da Juta surgiu a partir de várias ocupações do Movimento dos Sem Terra urbanos, mutirões de autoconstrução e da construção de apartamento pelo CDHU, uma empresa do governo do Estado de São Paulo que realiza o programa de habitação popular.

            O bairro conta com uma rede de serviços públicos, mas que devido ao adensamento populacional dos bairros vizinhos  não atende adequadamente a população local. Os principais equipamentos dessa rede pública são: EMEF Rodrigues de Carvalho (Ensino Fundamental), Escola Estadual Valdir Fernandes Pinto (Ensino Fundamental e Médio); EMEI Eder Sader (Educação Infantil), EMEI Carlos Humberto Volpon (Educação Infantil); Unidade Básica de Saúde Mascarenhas de Moraes; 2 Telecentros.
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DOCUMENTO HISTÓRICO 1: Propaganda da inauguração do bairro no Jornal Folha de S. PauloFonte: Jornal Folha de São Paulo, sexta-feira, 04 de outubro de 1968, 1º caderno, página 5.



DOCUMENTO HISTÓRICO 2: Reportagem do jornal Folha de S. Paulo com críticas do Movimento de Organização de Voluntários pela Promoção do Favelado - MOV -, sobre a forma como a Prefeitura estava trazendo moradores de favelas para o novo conjunto.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo, 6 de outubro de 1968, 1º caderno, página 4


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

TIREOIDITE CRÔNICA AUTOIMUNE E OS MORADORES DA REGIÃO DO POLO PETROQUÍMICO DE CAPUAVA

Comentários de Moisés Basílio

O nosso bairro, Conjunto Mascarenhas de Moraes, faz parte dessa região. Daqui do alto da colina avistamos todos os dias as chamas que vem lá da Petroquímica de Capuava. O que agora sabemos é que além da luz emanada pelas chamas, também vem a poluição de elementos químicos que causam doenças. Vamos ficar de olho vivo nas próximas consultas médicas. 


Morador de área petroquímica tem mais doença na tireoide

Fonte: Sitio do Jornal O Estado de S. Paulo, 17 de setembro de 2012 | 10h 49

MARIANA LENHARO - Agência Estado
O aparecimento de casos atípicos de tireoidite crônica autoimune no consultório da endocrinologista Maria Angela Zaccarelli-Marino, em Santo André, fez a especialista desconfiar que a incidência da doença era mais alta na região próxima ao Polo Petroquímico de Capuava. Depois de 15 anos investigando o tema, a professora da Faculdade de Medicina do ABC concluiu que moradores da área tinham incidência cinco vezes maior da doença.
O complexo, que fica na divisa entre Santo André, Mauá e São Paulo, reúne 14 indústrias que fabricam subprodutos de petróleo. De 1989 a 2004, a pesquisadora selecionou 6.306 pacientes que buscaram avaliação endocrinológica em seu consultório. Ela os dividiu em dois grupos conforme a região de residência.
O primeiro, com 3.356 pacientes, era proveniente dos arredores do Polo Petroquímico. Já o segundo, de 2.950 pacientes, vinha de outra área industrial distante 8,5 km da primeira região, porém sem a presença de petroquímicas. Ao fim do estudo, 905 pacientes do primeiro grupo (ou 26,9%) foram diagnosticados com a doença. Já no segundo grupo, 173 (ou 5,1%) tiveram o diagnóstico. A tireoidite crônica autoimune é a principal causa de hipotireoidismo.
Os resultados foram publicados em maio na revista científica Journal of Clinical Immunology. Ao longo do estudo, a pesquisadora fez notificações sobre a situação às secretarias municipais de saúde e ao Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE) da Secretaria Estadual da Saúde.
A pedido do promotor de Meio Ambiente de Santo André José Luiz Saikali, o CVE fez um estudo próprio para verificar o problema. O órgão analisou 1.533 voluntários das duas regiões. Enquanto 9,3% do primeiro grupo tinha tireoidite, apenas 3,9% do segundo grupo apresentava o problema. Os dados foram publicados na revista Environmental Research.
Além dos exames que já estavam presentes no estudo de Maria Angela, o CVE fez testes para dosar o iodo nesses voluntários. Havia a possibilidade de o aumento de casos da doença estar ligado a um consumo maior de iodo. "O CVE constatou que não era o iodo. Isso me deu uma certa tranquilidade, pois o estudo foi muito contestado", diz Maria Angela.
"Ninguém havia falado antes em tireoidite crônica autoimune provocada pelo ambiente. Sugiro uma nova denominação: tireoidite química autoimune", afirma a pesquisadora, que agora está iniciando um trabalho para identificar quais seriam os agentes químicos que desencadeariam a doença.
Para o imunologista Eduardo Finger, que tem pós-doutorado na área pela Escola de Medicina de Harvard e é chefe do departamento de pesquisa do SalomãoZoppi Diagnósticos, ainda é preciso determinar o que provoca a doença. "É preciso encontrar o poluente químico que tenha relação comprovada com a doença."
Consequências
A tireoidite crônica autoimune só começa a dar sintomas quando se instala o hipotireoidismo, diminuição da produção dos hormônios da tireoide. Os sinais são sonolência, queda de cabelo, pele seca, batimentos cardíacos mais lentos. Crianças podem parar de crescer e até desenvolver retardo mental. O tratamento, porém, é simples e envolve a reposição diária do hormônio tireoidiano.
A profissional de informática Noemi Lucena Silva, de 21 anos, descobriu a doença aos 9 anos. Ela mora ao lado de uma das indústrias petroquímicas. "Minha casa é literalmente ao lado da fábrica." Recentemente, a mãe de Noemi também foi diagnosticada com problemas na tireoide. Procurada pela reportagem, a Petrobras não comentou as conclusões do estudo. 
Irmãs vizinhas de indústria desenvolveram problema
As irmãs Gilda Buccini Martins, de 58 anos, e Sueli Buccini de Oliveira, de 52, moram lado a lado em casas geminadas no Jardim Santo Alberto, em Santo André, próximo ao Polo Petroquímico de Capuava. As duas são vítimas da poluição do entorno.
Gilda descobriu que tinha tireoidite crônica autoimune aos 50 anos. Sueli descobriu a doença com a mesma idade. No caso da filha de Sueli, de apenas 23 anos, a doença se manifestou mais cedo: há menos de um mês, ela teve de se submeter a uma operação para retirar um nódulo da tireoide.
Cansaço. Gilda conta que começou a se perceber mais cansada, com o cabelo mais fino e a pele seca, mas atribuía tudo à menopausa. Foi quando sua ginecologista pediu uma série de exames e percebeu a alteração da tireoide em um deles.
"Ficava encafifada, queria saber qual era a razão desse problema, queria saber de onde veio essa doença. Foi quando descobri que estavam fazendo uma pesquisa por aqui que relacionava o problema com a poluição."
A dona de casa relata que, por causa da indústria, o quintal sempre fica cheio de pó preto. "Às vezes, ela solta labaredas altas. Sai uma fumaça bem preta, depois começa a ficar cinza claro. A gente não consegue nem respirar direito. Mas eu não vou me mudar daqui. Quando você constrói a sua casa, constrói com amor e carinho."
O diagnóstico da auxiliar de enfermagem Nadia Fachini, de 56 anos, veio quando ela tinha 44. Ela resolveu ir ao médico porque estava obesa.
"A gente sempre teve medo dessa poluição. Tem dias em que começa a cair espuma do céu. Quando passamos mais perto, ficamos com o nariz ardendo", diz. Hoje ela faz tratamento com hormônio e controla com exames a cada três meses. / M.L.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

CAPELA DE S. MIGUEL ARCANJO É RESTAURADA

  Fonte: Publicado originalmente na edição impressa do Estadão, dia 18 de julho de 2012

Igreja completa 390 anos de cara nova

 SÃO MIGUEL PAULISTA
Restauração da capela mais antiga da capital, na zona leste, descobriu pinturas de 250 anos

Igreja mais antiga de São Paulo, a Capela de São Miguel Arcanjo, em São Miguel Paulista, na zona leste, completa hoje 390 anos. E tem muito para comemorar: depois das obras iniciadas em 2006, a construção de 1622 foi totalmente restaurada, ganhou museu e ainda viu a redescoberta de duas pinturas murais que estavam escondidas atrás de altares havia pelo menos 250 anos.
Para entender a história do local, é preciso voltar aos primeiros anos da cidade. Em 1560, índios guaianás se desentenderam com os colonos da então Vila de São Paulo de Piratininga. Comandados por Piquerobi, irmão do conhecido cacique Tibiriçá – aliado dos padres jesuítas –, eles caminharam 20 km ao leste e criaram uma nova aldeia, batizada de Ururaí.
Receosa de perder esses índios, a Companhia de Jesus delegou ao padre José de Anchieta a missão de reencontrá-los. Um percurso difícil à época, parte por terra, parte pelo Rio Tietê. Quando chegou ao local, o religioso tratou de renomear o povoado como São Miguel de Ururaí. Ali ergueu uma pequena capela, de bambu e sapé. Nascia o bairro de São Miguel Paulista.
A rudimentar construção religiosa deu lugar, décadas mais tarde, a uma nova igrejinha de taipa de pilão. É esta, de 1622, que vence o tempo e resiste até hoje – tombada por Iphan, Condephaat e Conpresp, respectivamente os órgãos federal, estadual e municipal de proteção ao patrimônio.

Restauro. A histórica capela passou por um longo processo de restauração, dividido em duas etapas. Na primeira fase, que durou de 2006 a 2009, a meta foi recuperar o edifício estruturalmente. “Havia problemas elétricos, hidráulicos e de infiltração de água”, lembra o gestor do local, Alexandre Galvão. Foram investidos R$ 3 milhões, bancados pela iniciativa privada.
Paralelamente a esse trabalho, uma equipe de arqueólogos e historiadores se debruçou sobre fatos, documentos e registros para que, pela primeira vez, a história da capela fosse recuperada de forma oficial. “No Vaticano, descobrimos cartas de Anchieta a outros jesuítas que nos ajudaram a entender como o povoado nasceu e como a primeira igrejinha foi feita”, conta Galvão. A carta mais antiga encontrada foi escrita em 12 de outubro de 1561.
Todo esse material fez com que os administradores do templo vislumbrassem a instalação de um museu. Nascia então a segunda fase do projeto, orçada em R$ 2,8 milhões e iniciada em 2009. “Passamos a recuperar as imagens esculturais”, diz Galvão. “Quando restaurávamos os altares, descobrimos, escondidas atrás de dois deles, pinturas murais que estavam ocultas e ao mesmo tempo protegidas”, relata o restaurador Julio Moraes. “Foi uma importante surpresa.”
Essas pinturas estão sendo cuidadosamente restauradas. “O trabalho deve ser concluído em novembro”, estima Moraes. Acredita-se que esses murais tenham sido pintados no século 17. E estavam cobertos pelos altares desde cerca de 1760.
Quem quiser conferir essas obras, entretanto, precisa se apressar. Concluído o processo de restauro, elas deverão ser novamente “escondidas” pelos altares, por determinação dos órgãos de proteção do patrimônio. Mas haverá reprodução fotográfica delas no museu, que está aberto desde 2010 e atrai cerca de 400 pessoas por mês.
>> Arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo comenta a história da igreja.

Serviço
Capela (e Museu) de São Miguel Arcanjo: Praça Padre Aleixo Monteiro Mafra, s/nº, São Miguel Paulista. Visitação: de quinta a sábado, das 10h às 12h e das 13h às 16. Às quintas e sextas, é preciso agendar visita pelo telefone (11) 2032-3921 ou pelo e-mail capela.visitacao @hotmail.com. Ingressos: R$ 4. Mais informações: http://capeladesaomiguelarcanjo.blogspot.com.br
Publicado originalmente na edição impressa do Estadão, dia 18 de julho de 2012

18.julho.2012 00:30:30

A capela mais antiga da cidade

Por Benedito Lima de Toledo*
A capela de São Miguel Paulista ostenta na verga de sua porta principal a inscrição: “Aos 18 de Julho de 1622 – S. Miguel”.
Com seus respeitáveis 390 anos de vida, essa capela conta em seu interior com “uma das primeiras e mais autênticas expressões de arte brasileira”, segundo Lúcio Costa. Por sua importância, foi o primeiro bem cultural em todo país a merecer, em 1938, o tombamento pelo SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), seguido posteriormente pelo CONDEPHAAT (1974) e pelo CONPRESP (1991).
São Miguel e Itaquaquecetuba eram alguns portos que foram se consolidando ao longo do Rio Tietê. A navegação fluvial constituía um essencial meio de comunicação. A partir do Porto Geral, situado junto ao Pátio do Colégio, os padres da Companhia atingiram regiões distantes, onde estabeleciam núcleos de catequização.
“A canoa foi o veículo do colonizador”, observa Leonardo Arroyo. Anchieta na sua Informação do Brasil e de suas capitanias (1584) cita que “a técnica e utilização de canoas feitas rapidamente, em poucos minutos, com a simples extração da casca de árvores e, em seguida, por meio do fogo, ajustando as pontas da casca (…), não poucos problemas eram resolvidos a contento”.
Anchieta, em toda sua existência, revelou-se incansável andarilho. Aprendeu a fabricar alpercatas, indispensáveis em terra onde não resistiam os sapatos “de coiro”, como se recorda, e foi o responsável pela abertura de um caminho pioneiro entre Cubatão e São Paulo que ficou conhecido como Caminho do Padre José.
Há referências à Aldeia de São Miguel de Ururaí em 1560, onde teria surgido uma capela de São Miguel Arcanjo erigida sob a orientação do padre José de Anchieta.
Sérgio Buarque de Holanda em Capelas Antigas de São Paulo pondera: “Nada indica que a igreja hoje existente na localidade seja a mesma que se ergueu na segunda metade do século 16. Sabe-se que pouco depois do ano de 1620 mudaram-se para ali, em grande número, índios de Itaquaquecetuba. O padre Francisco Morais (…) encontrou essa mudança efetuada quando veio de volta para São Paulo em 1624. Assim a transferência se fez entre 1620 e 1624. Nessa ocasião teria sido construída a capela hoje existente. O que condiz com a inscrição que ainda se lê gravada no batente superior da porta principal: “Aos 18 de Julho de 1622 – S. Miguel”.
São Paulo deve a construção da igreja hoje existente ao padre José Álvares, realizada com recursos fornecidos por Fernando Munhoz, conforme consta em seu testamento.
Após a expulsão dos jesuítas (1759) a aldeia passou à jurisdição dos frades franciscanos. A essa época, o Superior da aldeia (1781) era o célebre botânico frei José Mariano da Conceição Veloso, autor da obra Quinografia Portuguesa (1799).
A capela edificada em taipa de pilão, técnica muito difundida em São Paulo e notabilizada por sua solidez, contava com pé direito de quatro metros. Resolveu-se, então, realizar um alteamento da nave, passando esta a seis metros. Teria sido operação complexa. Foram introduzidos pilares adoçados às paredes laterais e a técnica utilizada nessa complementação foi o adobe (tijolos secos ao sol).
Nessa ocasião, uma capela foi edificada na lateral direita (1780) e o interior ganhou altares colaterais e pinturas. Os franciscanos mantinham contíguo à nave o chamado hospício destinado a acolher viajantes por dois ou três dias, “tendo para todos no dito hospício suficiente cômodo, assim de celas como refeitório, e mais oficinas”. O acesso se fazia diretamente pelo alpendre frontal. Atualmente o hospício cedeu lugar a um corredor lateral gradeado.
O alpendre, tão característico da arquitetura bandeirista, dos séculos 16 e 17, domina a composição e marca a imagem do monumento.
No momento, o interior de São Miguel está recebendo um cuidadoso trabalho de restauração. As pinturas em suas diversas modalidades de suporte ganham nova vida, dando coerência ao conjunto e estão sendo objeto de pesquisa por especialistas.
A capela de São Miguel foi implantada em um terreno elevado, cerca de 15 metros acima da cota do Rio Tietê e dele distante cerca de 500 metros. Em sua fase de uso regular, o porto contava com um renque de palmeiras imperiais assinalando o local de ancoragem. Essa relação do porto fluvial com a capela foi sendo, ao longo do tempo, seriamente prejudicada pela interposição de construções sem maior interesse.
Dada a relevância do monumento e sua posição na história das comunicações fluviais em São Paulo, impõe-se o restabelecimento desse quadro de relações que compõem o sítio original. “Um monumento não pode ser desvinculado de seu quadro natural” (UNESCO).
Carregado com os méritos apontados por Lúcio Costa, esse precioso acervo está a merecer a devida consideração.
* O arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo é professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.
Bibliografia consultada
ARROYO, Leonardo. Introdução. In: ANCHIETA, José de. Informação do Brasil e de suas capitanias (1584). São Paulo: Ed. Obelisco, 1964.
BOMTEMPI, Sylvio. O bairro de São Miguel Paulista. São Paulo: Prefeitura Municipal/Dep. de Cultura, 1970.
COSTA, Lúcio. A arquitetura dos jesuítas no Brasil. Revista do SPHAN, Rio de Janeiro, n.5, 1941. p. 9-100.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Capelas antigas de São Paulo. Revista do SPHAN, Rio de Janeiro, n.5, 1941. p. 105-20.
PETRONE, Pasquale. Aldeamentos paulistas. São Paulo: Edusp, 1995.

sexta-feira, 9 de março de 2012

SÃO MATEUS NAS PÁGINAS DE CULTURA DO ESTADÃO, VIVA!

Por Moisés Basílio Leal

        Sinais do tempos? Um cantor e compositor de S. Mateus - Zona Leste - Rodrigo Campos lançando seu segundo CD "Bahia Fantástica", é matéria de capa do caderno "D - Divirta-se" do jornalão O Estado de S. Paulo.

         Cansei de mandar cartas para as seções de leitores dos jornalões paulistanos protestando contra o descaso das coberturas jornalísticas, que sempre omitem a cultura produzida na periferia da cidade, como se a cidade só produzisse cultura na sua parte central e áreas nobres.

          Um exemplo disso é a pífia cobertura que a imprensa paulistana faz do carnaval da cidade. Só noticiam as escolas do grupo especial e ignoram a grande festa que acontece por toda cidade. Cada vez mais há um carnaval popular florecendo nas ruas de S. Paulo. São vários os blocos carnavalescos, as bandas e uma infinidade de pequenas escolas de samba. E mais, o carnaval não acontece só nos quatros dias de folia, mas há toda uma programação que atravessa o ano. 

          Como S. Mateus é um quebrada vizinha à minha quebrada de Sapopemba, que também tem um intenso movimento cultural, muito me alegra ver nosso pedaço na grande mídia e espero que não seja algo pontual, mas um nova tendência da nossa impressa. Abrir os olhos para o novo e superar os preconceitos de ver a cidade só por um viés. Viva as diversidades de nossa cidade.

DICA: O primeiro trabalho em CD do Rodrigo Campos foi álbuns "São Mateus não é um lugar assim tão longe", e pode ser ouvido em: http://www.radio.uol.com.br/#/volume/rodrigo-campos/sao-mateus-nao-e-um-lugar-assim-tao-longe/17972 
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Fonte: Jornal O Estado S. Paulo, por Daniel Telles Marques, em 09/03/2012, http://migre.me/8epCM

Rodrigo Campos vai de São Mateus à sua ‘Bahia Fantástica’ e entra com tudo para os grandes da música brasileira

Ele é o autor de um dos discos mais aguardados de 2012, que chega às lojas este mês. Enquanto espera, conheça melhor a vida e a carreira de Rodrigo Campos

O músico Rodrigo Campos - Felipe Rau/AE
Felipe Rau/AE
O músico Rodrigo Campos
Você conhece o sujeito da foto aí ao lado? Ele é Rodrigo Campos. Não é tão conhecido a ponto de ser famoso, mas também não é um completo estranho na cena musical de São Paulo. Rodrigo é um dos artistas mais bem falados de sua geração.
Compositor dos bons, cavaquinista e violonista dos melhores, chegou ao segundo álbum da carreira, Bahia Fantástica, com uma façanha que ultrapassa a qualidade estética do disco. Reuniu nele outros músicos do mesmo quilate que o seu por pura admiração dos colegas. Conseguiu, em três anos, desde o lançamento de São Mateus Não É Um Lugar Assim Tão Longe, em 2009, o reconhecimento de muita gente. E, também por isso, merece as páginas a seguir - e a sua atenção.
Seleção natural

Foi-se a luz e as três campainhas liberaram a entrada de Rodrigo Campos no palco do teatro da Sala Guiomar Novaes, na Funarte. Camisa florida, boina inexorável e violão modernoso embaixo do braço. Era a primeira vez em mais de um mês que fazia um show só seu, apenas com composições próprias.
Não que estivesse em ócio criativo: terminara a gravação do segundo disco, buscava algum selo para lançá-lo, organizava uma sessão de fotos para o novo álbum, coordenava projetos de shows e continuava se apresentando quase toda semana, fosse na roda de samba no Ó do Borogodó; com Kiko Dinucci, Marcelo Cabral e Romulo Fróes na banda ‘Passo Torto’ ou em outras incursões.
Rodrigo faz parte de uma geração de artistas que não se limitam à própria criação. Está aqui e acolá numa cena musical profícua e articulada. Por isso, consegue se apresentar mais do que o normal entre músicos do mesmo porte. Se Cabral não pode estar no Sambanzo, lá vai ele com seu violão e cavaquinho para substituí-lo com novos arranjos para as músicas, acompanhando as levadas de Thiago França no sax. Às vezes, se apresenta com Romulo Fróes e pode acontecer de tocar com a mulher Luiza Maita, fazer uma participação no show de Criolo ou em um dos outros projetos de Kiko.
Há entre eles um acordo tácito de escambo artístico. A flexibilidade musical e o talento deram a Rodrigo um bom poder de barganha. Reconhecido pela habilidade e estilo peculiar (no violão e no cavaquinho), o músico gravou com Romulo Fróes o Labirinto em Cada Pé e está na produção do próximo disco do compositor; produziu algumas faixas do Sambanzo; emprestou o cavaquinho e a percussão ao Nó Na Orelha, de Criolo, com produção de Marcelo Cabral; e ao disco homônimo do Metá Metá, entre outros.
Quando se refere a este núcleo, Rodrigo faz questão de falar da proximidade deles, de como foi a vivência a responsável pela cooperação artística - e não o contrario.
Panela aberta
O primeiro com quem tocou, ainda que a amizade só viesse a se consolidar em 2008, quando montaram a Gafieira Nacional, foi Thiago França. Rodrigo acabara de voltar de uma série de apresentações com o clarinetista Paulo Moura em 2004 e era o cavaquinho que levava os sambas no projeto Teatro Samba do Caixote. Thiago fora substituir o saxofonista do grupo e, enquanto ensaiavam no camarim, ouvira Rodrigo fazer um pequeno solo no instrumento. Pediu que ele repetisse a melodia no palco, Rodrigo tentou declinar (não gosta de solar, diz não se sentir confortável) e ouviu Thiago emendar de pronto: “Você não foi o cara que tocou com o Paulo Moura? Sola aí!”. E Rodrigo solou.

Marcelo Cabral ele conheceu quando lançou o primeiro disco São Mateus não é Um Lugar Assim Tão Longe, em 2009. Durante a turnê de lançamento do disco, Cabral substituiu o violonista oficial da banda. Foi tão preciso, que tomou o posto para si. Estreitaram laços na fossa amorosa quando, no mesmo período, os dois terminaram namoros longos.
Numa roda de samba, em 2009, ele substituto do cavaquinista e Kiko o do violonista, tocaram juntos sem sequer se apresentar, acompanhando harmonias de improviso em sambas de Itamar Assumpção, Wilson Moreira e cadências menos famosas de João Nogueira e Paulo Vanzolini. Sentaram-se juntos depois do show e de lá a amizade segue.
O burburinho causado por ‘São Mateus...’ fez Romulo ir em busca de Rodrigo. Mesmo vendo no palco um show morno, conta Rômulo, percebeu nas músicas o talento de compositor. Cumprimentou-o friamente ao final da apresentação e, depois de alguns encontros, decidiram trabalhar juntos.
Só no final de 2010, começaram a se organizar. Segundo Thiago, entre o carnaval, a copa e as eleições, os shows minguaram. Decidiram se juntar e inventar projetos. Sambanzo, Marginal, Metá Metá e o Passo Torto nasceram como idéia nessa época, ele conta. Menos de um ano depois, os projetos já tinham virado bandas e discos.
Em três anos e poucos meses, Kiko, Marcelo, Romulo e Rodrigo já gravaram um disco de sambas cadenciados e quebrados com o Passo Torto e, com Thiago, entrecruzaram-se em composições e produções de álbuns. Almoçam juntos pelo menos uma vez na semana ou se encontram para um chope, frequentemente no Sabiá. Em comum têm, principalmente, o samba e a maneira como se apropriam dele.
Foi-se o samba

O samba continua na essência de suas composições, no modo de escrever as canções, mas diluído em influências que vão de Curtis Mayfield a Funkadelic aos 12, o violão veio pouco depois. Aos 14 era o Rodriguinho, que tocava com Tocão do Banjo e Tim Maia, conta Everson Pessoa, músico do Quinteto em Branco e Preto, amigo de Rodrigo em São Mateus. Aos 20, em 2000, quando começou a estudar música na Fundação das Artes, em São Caetano do Sul, abriu-se o leque de influências.

Ele afirma não se sentir confortável no rótulo de sambista. “Sou muito moderninho para os sambistas e pouco moderno para quem se diz moderno”, costuma dizer rindo. “Sou um bom instrumentista, posso tocar quase tudo de Cartola, mas não me sinto um sambista”.

Atualmente, diz se identificar com as sonoridades de Curtis Mayfield (tocará o ‘Superfly’ inteiro em um show no segundo semestre) e Funkadelic - apesar de conhecê-los há pouco mais de um ano, como contou Thiago, responsável por lhe apresentar os artistas usados como referência nas gravações e composições do seu segundo disco. “O Rodrigo tem uma lacuna de referências”, revela Kiko, “mas tem também uma curiosidade incrível.” Rindo, Romulo lembra de quando mostrou Joy Division a Rodrigo. “Cara, imagina conhecer Ian Curtis depois dos 30 anos? É um privilégio.”

Fã de quadrinhos e filmes italianos, descreve cenas de um modo tão próprio que parece ter sido ele o inventor das sequências e personagens. Gosta de explicar ambições estéticas a partir de estilos cinematográficos. Planos prolongados, cenas de silêncio e afins, são justificativas que parecem elaboradas para ele mesmo. Fala do silêncio dos filmes de Michelangelo Antonioni e de como pensa em compor assim, com cenas prolongadas e intervalos dramáticos.

“Um dia ele colocou na página dele na Trama que tinha influência de Pollock!”, conta Romulo. “Eu disse, ‘que Pollock, mano?! Tira isso’. Ele me explicou que viu o filme (Pollock, 2000) e a coisa da arte nascer ali, espontânea como a tinta no chão, tinha a ver com o jeito dele de criar. ‘Não viaja, Rodrigo, aquilo é filme, Hollywood. Pollock não é assim.” Contrariado, ele tirou o nome do artista do seu perfil. Com ou sem expressionismo abstrato, todos elogiam sua capacidade de narrar.

Histórias em miniatura

Em ‘Califórnia Azul’, música do primeiro disco, constrói em três versos todo um capítulo da história de amor que narra. Da compra da arma à decisão de matar o bandido do bairro, namorado da menina por quem seu personagem se apaixonou.

Crescer em São Mateus formou seu comportamento e suas referências mais profundas. Educado, tem a fala mansa e uma paciência monástica. “Lá em São Mateus não podia chegar nos lugares falando alto, cumprimentando todo mundo aos gritos, senão batiam no seu peito para perguntar que história era aquela. Tinha que chegar na cautela”, explica.

Costuma observar antes de tecer comentários e está atento a detalhes de situações - seja um aperto de mão diferente ou o modo de falar de quem está por perto. Demonstra insatisfação com um silêncio profundo e demorado - às vezes acompanhado de um riso com o olhar fixo no interlocutor, que precede um comentário (sempre polido) de desaprovação do fato.

Noutras, apenas se retira do ambiente para não se indispor com alguém. “Uma vez, no Ó do Borogodó, Rodrigo ficou pedindo correções no som durante a passagem. Pedia, pedia e o cara não acertava. Aí ele se levantou, virou, colocou o cavaquinho no banco e saiu andando”, lembra Kiko, reencenando o episódio.

No palco, parece um Charlie Brown malandro, de camisa com dois botões soltos à altura do peito, pelos à mostra e uma timidez perceptível.

Da periferia, manteve a biografia, que não carrega ou evoca evidentemente, a não ser quando perguntado sobre o período Em São Mateus. Vivendo em Pinheiros, diz que só recentemente começou a se sentir mais parte da cidade. “Quando saí de São Mateus, percebi o quanto aquele lugar fazia parte de mim”. Deixou definitivamente o bairro em 2003, no mesmo período da prisão do irmão, condenado por roubar carros. Efetivamente, já não estava por lá desde 2000, quando começou a estudar na Fundação das Artes em São Caetano do Sul e a passar temporadas na casa de uma ex-namorada, na Mooca.

Gosta de caminhar por São Paulo, ir de metrô aos lugares (recusou a oferta do carro da reportagem duas vezes) e circular pelo bairro como andava intimamente pela periferia. Na San Siro, panificadora das redondezas, pede pão francês na chapa e uma média no balcão. “A coxinha daqui também é boa, com a casca durinha e sequinha como era lá em São Mateus.”

Personagem fantástico

Os contrastes na personalidade aparecem nos temas aos quais se dedica e como os apresenta. Nas suas canções, o jeito manso é usado para tratar de assuntos agressivos. Morte e violência (física, psicológica e social) são recorrentes. Aos 34 anos, aproximou a morte de si mesmo, preocupado com a finitude e o sentido da vida. Ainda que tenha cantado sobre mortes em ‘São Mateus...’, fez a partir do que viveu quando morou no bairro, como observador e cronista. ‘Bahia Fantástica’, título de seu novo disco, traz a sua percepção, desta vez mais íntima, sobre o assunto. “O que é morrer? É só acabar? Essa morte no ‘Bahia Fantástica’ pode ser metafórica. Como algo que termina.”

Quando perguntado sobre suas composições, é quase didático nas explicações, mesmo com as constantes ressalvas de que “cada pessoa pode entender o que quiser” de suas músicas. Exemplifica intenções citando os próprios versos. Explica como ofereceu a Bahia aos ouvintes com os versos de ‘Cinco Doces’. E sabe usar sua capacidade criativa como argumento para as possíveis acusações de conhecimento restrito sobre o cenário inventado do disco. Da Bahia, de fato, sabe dizer dos dez dias de estadia em Itapuã, bairro de Salvador; das canções sobre o estado e de ‘Capitães de Areia’, único livro lido de Jorge Amado. “Não falo de uma Bahia geográfica, mas de uma Bahia subjetiva, metafórica. Ela é um lugar que eu inventei. Não é pesquisa, é arte”.

Hoje (9) - Toca com Marcelo Cabral, Kiko Dinucci, Thiago França e Pimpa, no Ó do Borogodó, a partir das 22h.
Domingo (11) - Faz show com mais de 50 artistas no Teatro Oficina, 17h.
Sexta (22) - Toca com Romulo Fróes no Sesc Consolação, 21h.
Domingo (1/4) - Desta vez, se apresenta com o Passo Torto no Sesc Itaquera.
Quinta (31/5) - Show de lançamento do ‘Bahia Fantástica’ no Sesc Vila Mariana.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

7O ANOS DE HABITAÇÃO SOCIAL

Comentários de Moisés Basílio: 

          A seguir um conjunto de reportagens publicadas no Jornal O Estado de S. Paulo sobre os 70 anos de habitação social. Parabéns ao jornal pela iniciativa no geral, mas em particular cabe ressaltar, em minha opinião, que faltou faro jornalístico para a editoria de reportagem do Estadão ao não incluirem o Conjunto Habitacional Marechal Mascarenhas de Moraes nessa série de reportagens. Longe de bairrismo, o Conjunto Mascarenhas de Moraes é um dos primeiros construídos pela COHAB-SP e marca um momento de transição, cuja característica é um meio termo entre os projetos habitacionais anteriores ao golpe militar e a nova proposta surgida com o BNH. 

          É importante salientar o embate político que se deu nesse período na cidade de São Paulo - entre 1966 e 1969 - governo do prefeito Faria Lima e que teve como presidente da COHAB-SP o empresário, que depois viria a ser presidente da FIESP, Mario Amato. Em seu livro bibliográfico, "80 anos de vida, 68 de trabalho: Mário Amato" de Luiz Ferreira Lima, Amato faz um relato das divergências entre o governo municipal e os dirigentes do BNH ligados ao governo da Ditadura Militar sobre a concepção de moradia social. 

          O projeto do BNH acabou triunfando na cidade de São Paulo a partir de 1969 quando é tramada a queda do prefeito eleito Faria Lima e posto em seu lugar, como interventor indicado pelos militares, a figura sinistra de Paulo Salim Maluf. Com Maluf no comando os blocos de concretos são erguidos em Carapicuíba e seguem rumo à periferia de S. Paulo. Para completar a malvadeza, na sua volta à prefeitura no período de 1993 a 1996, são construídos os conjuntos denominados Cingapura.

            Faltou profundidade à reportagem. Um maior número de conjuntos habitacionais poderiam ter sido analisado em suas diversidades.


70 anos da Habitação Social em São Paulo

Veja o vídeo com uma síntese do conjunto de reportagens publicadas no jornal:

Artigo: Moradia e (in)dignidade

Fonte: 27 de agosto de 2011 | 16h 00 - Jornal O Estado de S. Paulo
Autor: Milton Hatoum

Nos anos 70, quando eu estudava na Fau-Usp, um dos poemas mais lidos e comentados por estudantes e professores era “Fábula de um arquiteto”, de João Cabral.
O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.
Esses versos pareciam nortear a concepção e a organização do espaço, trabalho do arquiteto. A utopia possível de vários estudantes era transformar habitações precárias (eufemismo para favelas) em moradias dignas. O exemplo mais famoso e visitado naquele tempo era o Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães Prado (Parque Cecap) em Guarulhos. Esse projeto de Vilanova Artigas era um dos poucos exemplos de habitação social decente, mas seus moradores não eram ex-favelados. 
De um modo geral, a política de habitação popular no Brasil consiste em construir pequenos e opressivos apartamentos ou casas de baixo padrão tecnológico, sem nenhum senso estético, sem relação orgânica com a cidade, às vezes sem infra-estrutura e longe de áreas comerciais e de serviços públicos. Vários desses conjuntos habitacionais são construídos em áreas ermas, cuja paisagem triste e desoladora lembra antes uma colônia penal que uma moradia. Isso acontece de norte a sul do país. Em São Paulo, os conjuntos denominados Cingapura são verdadeiras aberrações arquitetônicas, que subtraem do ser humano toda dignidade relacionada com a cidadania. É como se uma família pobre saísse de uma favela e ocupasse uma espécie de abrigo, e não um lugar para morar. 
Mas há mudanças e avanços significativos na concepção de projetos de habitação social, infra-estrutura, lazer e paisagismo, projetos que, afinal, dizem respeito à democracia e ao fim da exclusão social. Um desses avanços é o trabalho da Usina. Fundada em 1990 por um grupo de profissionais paulistas, a Usina tem feito projetos de arquitetura e planos urbanísticos criteriosos e notáveis, que contam com a participação dos moradores de bairros e comunidades pobres. Trata-se de uma experiência de autogestão na construção, cujos projetos, soluções técnicas e o próprio processo construtivo são discutidos coletivamente, envolvendo os futuros moradores e uma equipe de arquitetos, engenheiros e outros profissionais. Lembro que essa experiência era um dos temas debatidos na FAU na década 70, quando líamos textos de Sérgio Ferro e assistíamos com interesse às aulas de grandes professores como Flávio Motta, Rodrigo Lefrève, Flávio Império e Luis Carlos Daher e Renina Katz, entre outros. Nessa década brutalizada pela ditadura, a prática dos estudantes no canteiro de obras era uma aprendizagem incipiente e quase utópica, mas se tornou realidade em 1998, quando foi criado o “canteiro escola”, a que o professor e arquiteto Reginaldo Ronconi acrescentou a proposta do “canteiro experimental”, uma disciplina que faz parte da grade curricular da Fau-Usp. De algum modo, o trabalho coletivo da Usina relaciona-se com a prática do canteiro experimental, que, segundo Mônica Camargo, “é uma experiência pedagógica transformadora, que permite a compreensão das relações complexas entre teoria e prática, desenho e canteiro, técnica e estética”.    
Em graus variados, são essas relações entre arquitetura e sociedade que norteiam a visão e a prática de alguns profissionais que lidam com habitação social no Brasil. A arquitetura é um processo, e não um mero desenho, como diz João Filgueiras (o Lelé), sem dúvida um dos arquitetos mais talentosos e inventivos do país. Além do trabalho coletivo da Usina, há outros projetos arquitetônicos e urbanísticos relevantes, que apontam para soluções inventivas.
Acompanhei jornalistas do Estadão em visitas a conjuntos habitacionais em Heliópolis e à represa Billings, onde está sendo implantado o “Programa Mananciais”. Em Heliópolis, Ruy Ohtake projetou edifícios em forma cilíndrica, daí o apelido de “redondinhos”. A planta dos apartamentos de 50 m2 é bem resolvida, os materiais de construção e o acabamento são apropriados, e todos os ambientes recebem luz natural. Na fachada circular, painéis com cores fortes dão vida ao edifício. Esse projeto de Ohtake, e o de Hector Vigliecca (ainda em fase de construção) revelam um avanço notável na concepção da moradia para as camadas mais populares. Mostram também que é possível e desejável enterrar de vez os vergonhosos projetos Cingapura e Cohab dos anos 80 e 90.

Um dos projetos do “Programa Mananciais” é uma ousada e bem-sucedida intervenção urbana (infra-estrutura, paisagismo e lazer) numa das áreas mais pobres e também mais belas da metrópole. Situado às margens da Represa Billings, o Parque Linear (que inclui o Residencial dos Lagos e o Jardim Gaivotas) é, em última instância, um projeto de cidadania que contempla milhares de famílias dessa área densamente povoada da Zona Sul. Não por acaso esse projeto da equipe do arquiteto Marcos Boldarini recebeu vários prêmios no Brasil e no exterior. Além do enorme alcance social, o projeto foi pensado para preservar a Billings e suas espécies nativas.  Penso que a realização dessa obra de engenharia e arquitetura é um dos marcos do urbanismo brasileiro. Sem ser monumental, o Parque Linear é uma obra grandiosa e extremamente necessária, concebida com uma sensibilidade estética e funcional que dá dignidade a brasileiros que sempre foram desprezados pelo poder público. É também um exemplo de como os governos federal, estadual e municipal podem atuar em conjunto, deixando de lado as disputas e mesquinharias político-partidárias.  
Além de ter arquitetos e engenheiros competentes, o Brasil possui também recursos para financiar projetos de habitação popular em larga escala, como prova o programa “Minha casa, minha vida”. Mas é preciso aliar a vontade política a uma concepção de moradia que privilegie a própria vida dos moradores e sua relação profunda com o meio ambiente e o espaço urbano. Já é tempo de acabar com edifícios-pombais e casas-cubículos, que mais parecem abrigos asfixiantes, construídos com materiais de quinta categoria e péssimo acabamento.
“Construir, não como ilhar e prender”, diz um verso de João Cabral. A sociedade e o Estado brasileiro podem e devem reparar essa injustiça histórica e dar a milhões de brasileiros pobres uma moradia humana, e não um abrigo ou teto. Porque morar é muito mais do que sobreviver em estado precário e provisório. 

10% dos paulistanos vivem em conjunto habitacional

De projetos modernistas a Cohabs, a evolução da moradia social na cidade teve mais retrocessos que avanços

28 de agosto de 2011 | 0h 00
Vitor Hugo Brandalise - O Estado de S.Paulo
Um conjunto de 22 prédios modernistas, com 480 apartamentos, separados por jardins e áreas de lazer. Com boa iluminação e localizado a dois quilômetros da Praça da Sé - vencidos "em 15 minutos por meio do bonde". Projetado há 70 anos, o primeiro conjunto habitacional de São Paulo, o Várzea do Carmo, no Glicério, centro da capital, é reflexo no Estado da primeira política de habitação social do País, iniciada em 1942 pelo governo Getúlio Vargas.
Sete décadas depois do conjunto pioneiro, a capital paulista está prestes a atingir a marca histórica de 1,1 milhão de pessoas (10% da população da cidade) vivendo em unidades de moradia social, segundo levantamento inédito do Estado - desde os prédios modernistas dos Institutos de Aposentadoria e Pensão (IAPs) às Cohabs, Cingapuras e CDHUs construídos décadas depois. Trata-se de política que sempre foi dispersa e fragmentária - e cuja principal consequência, 70 anos depois, é o maior déficit de habitação do Brasil, com 520 mil pessoas sem moradia na capital.
Os números da produção das políticas habitacionais no Estado ilustram o quanto há pela frente. Hoje existem 277.969 unidades populares em conjuntos habitacionais na cidade. Até 2015, esse número deverá subir para 371.934, considerando os prédios já planejados pela Secretaria de Estado da Habitação (CDHU) e pela pasta municipal (Sehab). Quando isso ocorrer, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 1,4 milhão de pessoas viverão em conjuntos habitacionais na cidade, ou 12% da população. Ainda assim, 1,8 milhão de pessoas ainda viverão em favelas e moradias precárias.
Na série de reportagens que começa hoje, o Estado mostra a evolução das tentativas públicas de construir moradia em São Paulo: do primeiro grupo de edifícios, projetado em 1942 seguindo os mesmos princípios da construção de Brasília, ao período das Cohabs, quando moradia social virou sinônimo de isolamento em "cidades-dormitório" - ou, como definem os moradores, simplesmente em "pombais": espaços apertados, úmidos, pouco iluminados, sem equipamentos de lazer. E distantes quilômetros dos centros urbanos.
Operários. O primeiro conjunto habitacional de São Paulo foi construído para dar teto a operários das indústrias gráfica e de vidros da região do Glicério. É resultado das medidas instituídas por Vargas para melhorar as condições dos assalariados - e garantir intervenção estatal em todos os setores da sociedade, até mesmo mercado imobiliário e construção civil. Além de moradia para os trabalhadores, os conjuntos dos IAPs - precursores do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), que chegaram a construir 25% dos imóveis do Rio em 1940 - eram vistos como importante patrimônio da União. Por isso, tinham projetos inovadores e de qualidade.
O Várzea do Carmo ainda hoje está lá, na beira da Avenida do Estado - e não há morador que se queixe dos apartamentos. São prédios de quatro andares, com apartamentos de amplas janelas e até 60 m² de área, avaliados em R$ 200 mil. Mas fazem parte de um conjunto - e isso proprietários desconhecem - cujo projeto nunca foi executado integralmente.
Na versão original, o Várzea do Carmo teria 43 prédios de quatro andares e 16 de 11 andares. No fim, o governo decidiu construir apenas 22 prédios menores. Nenhum dos equipamentos de serviço - como os quatro prédios comerciais - saiu do papel. Os antigos jardins abertos, projetados sob o ideal moderno de devolver área livre à cidade, hoje são isolados por grades. E antigos equipamentos de lazer viraram garagens.
"Attilio propôs plano urbanístico que ainda hoje mantém sua atualidade: conjunto residencial articulado ao sistema de transportes coletivos, habitação econômica próxima ao centro e a locais de emprego, equipamentos sociais e serviços urbanos", escreveu o arquiteto e urbanista Nabil Bonduki, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP), no livro inédito Pioneiros da Habitação Social no Brasil, com publicação prevista até dezembro.
Quantidade. A partir da década de 1950, construção civil deixou de ser foco dos IAPs - os fundos passaram a ser utilizados para seu objetivo principal: pagar aposentadoria ao trabalhador. Para suprir a lacuna, em 1964, ano do golpe militar, foi fundado o Banco Nacional de Habitação (BNH), primeiro órgão de financiamento para construção de moradias do País.
A forma de atuar, então, mudou radicalmente: em São Paulo, a maior parte das 25 mil unidades financiadas pelo BNH foi construída pelo método pré-fabricado - começava a era da produção massiva, a ordem era quantidade, não havia mais preocupação com projeto arquitetônico. "Para o BNH, as intervenções em qualquer cidade eram sempre iguais: casas prontas, em terrenos baratos periféricos e desconsiderando especificidades urbanas, sociais e culturais", avaliou Bonduki. A atuação do BNH, portanto, foi determinante para que "conjunto habitacional" virasse sinônimo de moradia de má qualidade.
Na década de 1980 - quando o número de moradores de favelas na capital passou de 71 mil pessoas em 1973 para 812 mil em 1987 -, os reflexos dessa política foram multiplicados. A Companhia de Habitação de São Paulo (Cohab, criada em 1965) viveu seu momento de maior produção - no total, construiu 138 mil unidades, 49% do total da cidade. Com a migração de habitantes das regiões Norte e Nordeste do País para a cidade e as primeiras remoções de favelas, a solução escolhida foi construir enormes conjuntos afastados do centro - o maior exemplo são os de Cidade Tiradentes, no extremo leste da capital, a 30 quilômetros da Sé. É o maior aglomerado de conjuntos habitacionais do Brasil, onde vivem 147 mil pessoas (o maior do Rio, o Dom Jaime Câmara, por exemplo, abriga 26 mil).
Após a redemocratização, as cidades passaram a ter maior participação nas política habitacional. "Com maior conhecimento local e participação da comunidade, boas iniciativas surgiram, como mutirões e políticas de autogestão. Mas sempre em pequena escala", avalia a urbanista Ana Paula Koury, doutora pela Universidade de São Paulo (USP). "A saída é construir moradia com que a pessoa se identifique, como foi feito nos primeiros anos. Depois, houve retrocesso. Ainda hoje o País paga por isso", afirma.

A vida na cidade dentro da cidade

Maior complexo habitacional do País fica em Cidade Tiradentes, zona leste

29 de agosto de 2011 | 0h 00
Vitor Hugo Brandalise - O Estado de S.Paulo
Quase 37 mil apartamentos, em cerca de 1,4 mil prédios, onde vivem 147 mil pessoas. O maior aglomerado de conjuntos habitacionais do Brasil, em Cidade Tiradentes, extremo leste da capital, tem população superior a 596 dos 645 municípios de São Paulo. Nunca parou de receber novas unidades, mas, como não foram planejados setores para comércio e serviços, milhares de "puxadinhos" foram construídos. Além dos anexos ilegais, mesmo no meio do conjunto que mais recebeu investimento dos governos estadual e municipal, há também favelas e áreas dominadas pelo tráfico.
Crescimento. Tatiana de Almeida com a filha de 8 anos; população é maior que 596 das 645 cidades paulistas - Paulo Liebert/AE
Paulo Liebert/AE
Crescimento. Tatiana de Almeida com a filha de 8 anos; população é maior que 596 das 645 cidades paulistas

Só no maior dos conjuntos, o Santa Etelvina - onde vivem 107 mil pessoas, ou 73% de todo o aglomerado -, foram construídos mais de 1 mil puxadinhos. Projetados como garagens, são locados informalmente entre os moradores. Neles funcionam lanchonetes, padarias, lan houses, igrejas evangélicas, lojas de roupas, pastelarias, estúdios de tatuagem. "Foi a forma que a comunidade encontrou para viver. Todo mundo se vira como pode", disse Viviane Barbosa, de 29 anos, dona de uma loja de doces que funciona em uma antiga garagem.
O Estado revelou ontem na primeira reportagem desta série que, sete décadas depois do primeiro conjunto habitacional da cidade, 10% dos paulistanos (ou 1,1 milhão) vivem em unidades de moradia social. Ainda assim, o déficit na cidade é de 520 mil pessoas sem moradia. Cidade Tiradentes, o "bairro dormitório" que nunca parou de crescer, com seus puxadinhos e favelas resume os principais erros cometidos nesse período. "A primeira razão é o isolamento. Foi construído a 30 km do centro. As carências de um local não integrado à cidade se refletem nessa área até hoje", diz a historiadora Simone Lucena Cordeiro, que organizou livros sobre habitação social e cuja tese de doutorado na PUC-SP foi sobre Cidade Tiradentes.
O complexo Santa Etelvina foi iniciado em 1984, quando habitação social se resumia a construção em massa de unidades idênticas, sem respeitar diferenças sociais e culturais e desconsiderando carências de infraestrutura. Esse modelo predominou no País a partir da criação do Banco Nacional de Habitação (BNH), em 1964, durante o regime militar, e atingiu seu auge em São Paulo nas décadas de 1980 e 1990 - período em que a Companhia de Habitação de São Paulo (Cohab) mais construiu.

Emprego. A explicação para o surgimento do comércio informal foi a falta de estímulo para que os moradores consigam trabalho no próprio conjunto. "Emprego por aqui não tem. Desde que minha família chegou, removida da Brasilândia, todo mundo sempre trabalhou fora. São três a quatro conduções todos os dias para mim, meu irmão e minha mãe", contou a promotora de vendas Tatiana Aparecida de Almeida, de 32 anos, que leva 3h30 para chegar ao emprego, em Guarulhos. "Tiradentes fica isolada mesmo. Todo mundo já acostumou, não tem banco nem casa lotérica. Um ou outro caixa eletrônico e só. De "Cidade", só tem o nome."
No meio de vários conjuntos, formou-se a Favela Maravilha - cujos habitantes são, principalmente, familiares de moradores dos complexos e ex-proprietários das unidades que não conseguiram se manter ali. "O conjunto estava caindo aos pedaços e os "noias" tomavam conta. Deixava roupas no varal e, um dia depois, já não estavam mais. Se é para construir e deixar de lado, não adianta", disse o vigia Fernando Henrique Duarte, de 33 anos, que viveu por dois anos em um conjunto e depois voltou para a favela. "Tenho família morando ali, mas eu não volto mais", afirma.
Quando a Maravilha ainda estava se formando, no início dos anos 2000, outra leva de imóveis começou a ser construída pela Cohab no Santa Etelvina - eram casas de dois andares, em setor conhecido como "Casinhas". É um dos pontos, segundo moradores e assistentes sociais, completamente dominado pelo tráfico. "Tem dia que nem carteiro entra. E polícia, de jeito nenhum. É o tráfico que regula quem entra e quem sai", diz uma moradora.
A Prefeitura afirma que, nos últimos cinco anos, a preocupação com o perfil do morador é maior. "Sabemos da necessidade de identificação do morador com sua casa", diz a superintendente de Habitação Popular da Secretaria Municipal de Habitação (Sehab), Elisabete França.

Na Vila Madalena, uma 'Cohab chique'

Condomínio Natingui tem apartamentos de 68 m² que valem até R$ 300 mil

30 de agosto de 2011 | 0h 00
Vitor Hugo Brandalise - O Estado de S.Paulo
Entre as centenas de conjuntos habitacionais projetados em São Paulo pelo antigo Banco Nacional da Habitação (BNH) - o órgão que mais financiou unidades no País - o Condomínio Natingui, na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo, apresenta uma diferença que garantiu seu futuro: boa localização e qualidade de projeto arquitetônico. O resultado é que hoje, 43 anos depois de inaugurado, seus 55 prédios com apartamentos de 68 m² de área já valem até R$ 300 mil. E o conjunto recebeu dos vizinhos o apelido de "Cohab chique".    
Organização. Maria Regina, da associação de moradores: praça reformada se tornou ponto de encontro - Paulo Liebert/AE
Paulo Liebert/AE
Organização. Maria Regina, da associação de moradores: praça reformada se tornou ponto de encontro

O condomínio hoje é dividido entre Natingui I e Natingui II. Ali, estudantes universitários e arquitetos dividem espaço com familiares dos primeiros moradores.
O conjunto foi construído em 1968, quando o BNH (fundado em 1964) ainda seguia conceitos que marcaram os primeiros anos da habitação social no Brasil.
Mais tarde, a partir de fins da década de 1970, o órgão ficou conhecido pela construção em massa de unidades idênticas, ignorando diferenças sociais e culturais - modelo que predominou no País durante o regime militar e atingiu seu auge em São Paulo nas décadas de 1980 e 1990.
Conforme revelou o Estado na série de reportagens que começou no domingo e se encerra hoje, sete décadas depois da construção do primeiro conjunto habitacional da cidade - o Várzea do Carmo, no Glicério -, 10% dos paulistanos (ou 1,1 milhão de pessoas) vivem em unidades de moradia social.
O Condomínio Natingui, integrado à cidade e com projeto que garante boa habitação por décadas, é exemplo de um conjunto habitacional que deu certo. "Quem vive aqui gosta. O lugar vem mudando, a padaria da esquina foi derrubada para entrar uma de grife, mas aqui dentro, no condomínio, continuamos vivendo em um desses lugares que chamamos de "oásis" dentro da cidade", elogia a dona de casa Maria Rosa Antonioni, de 53 anos, que vive no conjunto há duas décadas.
A qualidade do projeto, segundo especialistas em habitação, é uma das razões principais para o sucesso da moradia social. "É simples: quem gosta cuida", explica a historiadora Simone Lucena Cordeiro, estudiosa da habitação social na cidade.



No caso do Natingui, quando problemas surgiram, os moradores se mobilizaram para corrigi-los: no início dos anos 2000, a "Praça do BNH", como é chamada a área verde no meio do conjunto, estava abandonada e havia virado ponto de uso e venda de drogas. "Criamos uma associação e cobramos taxa mensal para conseguir fazer uma reforma. Hoje, a praça é o ponto de encontro da vizinhança", garante a professora de História Maria Regina Acquarone, de 49 anos, presidente da Associação dos Moradores do Condomínio Natingui. "As babás dos condomínios chiques trazem as crianças para passear, o pessoal faz jogging e tem campeonatos de skate. A praça ganhou vida de novo."
Mesmo com todo o cuidado de moradores, algumas características do conjunto foram modificadas: hoje, grades separam cada prédio (antes havia jardins) e o térreo, antes área de livre circulação, foi adaptado para receber garagens. Alguns moradores entraram na Justiça para poder construir "puxadinhos", também usados como garagem.
Localização. Para o arquiteto e urbanista Nabil Bonduki, especialista em habitação social, três fatores beneficiaram o conjunto: localização ainda próxima do centro, método construtivo anterior aos pré-fabricados que marcaram as construções do BNH e valorização do entorno. "Alguns conjuntos, como esse e outro próximo do Alto de Pinheiros, foram beneficiados pelo período em que o BNH ainda não se preocupava somente em construir unidades em massa." Bonduki lança, até dezembro, o livro Os pioneiros da Habitação Social no Brasil, que vai contar a evolução dos conjuntos habitacionais no País, com projetos de mais de 300 conjuntos de todo o Brasil. 

Cingapuras estão rodeados por favelas

Conjuntos habitacionais foram criados na década de 1990, na gestão Paulo Maluf, justamente para remover favelas de áreas da cidade

30 de agosto de 2011 | 0h 00
Vitor Hugo Brandalise - O Estado de S.Paulo
Remover favelas e construir no lugar conjuntos habitacionais para seus moradores. O Projeto Cingapura, maior programa de habitação social da cidade durante a década de 1990 - criado na gestão Paulo Maluf (1993-1996) e que continuou na administração de Celso Pitta (1997-2000) - construiu 17 mil moradias na cidade. Sem acompanhamento das famílias que foram removidas, porém, quase 10 anos depois de encerrado, grande parte dos 49 Cingapuras da cidade está rodeada de favelas.
"Os conjuntos do Projeto Cingapura foram construídos sempre em vias de grande movimento, mais para dar visibilidade do que para solucionar o problema. Podem ser vistos como grandes "outdoors" de uma política de habitação que não funcionou", avalia a arquiteta e urbanista Ermínia Maricato, do Laboratório de Habitação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP).
Durante a gestão Maluf, foram removidas 15 mil pessoas de favelas - quatro vezes mais do que o número de unidades construídas em Cingapuras. "O resultado é que as favelas voltam", disse Ermínia. Entre os pontos visitados pelo Estado, como os Cingapuras da Água Funda, da Imigrantes e de Interlagos, todos na zona sul, é comum encontrar pessoas que foram retiradas das favelas e depois voltaram. "Removeram a favela e depois foram embora, sem acompanhar. Aí o pessoal volta, né?", disse a líder comunitária Angela Antunes, de 48 anos, moradora do Cingapura Imigrantes.